IAB-ES e o Cais das Artes

O Instituto de Arquitetos do Brasil, Departamento Espírito Santo (IAB-ES) chamou atenção, durante todo ano de 2021, para o abandono das obras do Cais das Artes, em Vitória. Considerando ser urgente a retomada e finalização do empreendimento, reivindica-se aos órgãos governamentais competentes uma resposta quanto à continuidade da construção e do funcionamento desses processos de requalificação urbana e defesa de bens que visam o uso coletivo, construído para proteção da paisagem e da segurança das pessoas.

O IAB-ES tem se colocado à disposição, para propor planos e soluções no sentido de minimizar transtornos de segurança, em maior urgência e, também com o objetivo de somar na mobilização para a sua retomada o quanto antes.

Acredita-se no papel da Arquitetura e Urbanismo em diagnosticar e antever problemas nas cidades, bem como, alçando mão de suas competências precípuas, poder participar do planejamento, delineamento, tomadas de decisão e do monitoramento da operacionalização de ações em prol do bem comum em áreas urbanas de uso compartilhado – sobretudo de espaços patrimoniais culturais, históricos e de uso turístico.

Os debates acerca da proteção das áreas urbanas estiveram presentes no Brasil mesmo antes do início das políticas de preservação do patrimônio, no final dos anos 1930. Tais preocupações não são alheias ao campo da Arquitetura e Urbanismo. Ao contrário, questões pertinentes ao Cais das Artes, uma obra concebida por um arquiteto capixaba, com renome nacional de internacional, como Paulo Mendes da Rocha, e que envolve recursos públicos de grande magnitude, dispensa explicações sobre a devoção da atenção do campo do IAB-ES.

Não obstante o envolvimento mais que justificável da Arquitetura e Urbanismo desde a sua gênese, o fato da manutenção de uma obra paralisada já há mais de cinco anos, na região da Enseada do Suá, na capital do Espírito Santo, Vitória, acarreta impacto ao entorno, à vizinhança, à área envoltória ou de tutela comum, parafraseando-se algumas das denominações empregadas por órgãos de preservação, legislações e cartas patrimoniais para formular um conceito que se refere à área que circunda o bem tombado, sujeita a restrições de uso e ocupação, efetivando a conservação pela relação do bem com seu espaço imediato.

Os problemas urbanos, relacionados à paisagem do lugar, e ainda de ordem socioambiental, são sim da alçada da Arquitetura e Urbanismo. Por isso o IAB-ES tem se inserido com veemência no palco desses debates, visto que não é de hoje; na verdade, remonta a década de 1970, a concretização, promovida pelo processo de redemocratização do país, da participação da sociedade civil, e de seus vários atores e instituições, na decisão sobre os projetos para a cidade, e de ordenação urbana.

A preocupação e atenção, legitimadas, do IAB-ES, se dá na vertente da insegurança e destituição de valor que uma obra parada acarreta na polis. O Cais das Artes – espaço, projetado pelo arquiteto e urbanista, Paulo Mendes da Rocha, que nos deixou em 2021 – foi idealizado para ser um marco urbano na paisagem da capital do Espírito Santo, um cartão postal e um lugar de visitação e trânsito constante, de turistas e dos moradores da cidade de Vitória.

A premissa era a de oportunizar a visitação e a permanência de pessoas na região, trazendo mais dignidade e respeitabilidade à cidade sede desse patrimônio turístico e artístico, compondo com o complexo da Praça do Papa, de visitação do Projeto Tamar e do roteiro gastronômico do Hortomercado, no intuito de auxiliar no processo de valorização da região da Enseada do Suá.

A interrupção da obra, já desde 2015, ao contrário, promove a desagregação do ambiente. Em uma obra parada, se cria um local isolado, fechado, com um alto custo, que neste caso, está se deteriorando, produzindo um cenário violento e opressor para as pessoas, que percebem que o poder público e as entidades privadas não tem condições e atitudes efetivas para que a cidade que eles investem, ou que eles trabalham para, seja melhor. Esta situação traz uma sensação de desordem e desigualdade, criando ferramentas para que esse medo piore cada vez mais.

O IAB-ES acredita que a Arquitetura e Urbanismo quando projetados para a transformação da paisagem das áreas urbanas e quando complementada com o uso e permanência das pessoas nesses locais, transformam esses cenários para melhor, sendo eles limpos, que tragam dignidade e respeitem o verde, a natureza, e o entorno.

A mobilização do instituto origina-se também da tentativa de chamar a atenção do empresariado no intuito de somar esforços e iniciativas para buscar a reativação do projeto, que tem por objetivo fazer com que a cidade se torne um lugar melhor. Não faltam benefícios e qualidades que esse tipo de intervenção, sendo bem feita, poderá trazer à cidade.

Com um espaço como esse, funcionando diuturnamente, para eventos culturais e outras programações, a situação tende a se transformar de forma absoluta. Visto que as festividades na Praça do Papa, à noite, nos brindam com uma região extremamente aprazível para a circulação de pessoas. Um local fresco, espaçoso, com infraestrutura urbana, propício para confraternizações sociais.

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